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A ‘Saga’ da ópera-teatro que é lírica, popular e rock Mais de 60 pessoas, incluindo uma banda militar, vão estar numa estrutura gigante no claustro dos Jerónimos. É a ‘ópera extravagante’ d’O Bando, conta Ana Dias Ferreira.
Quando um espectáculo tem como subtítulo “extravagante”, é porque é extravagante mesmo. E Saga – ópera extravagante, a nova produção do grupo de teatro O Bando que se estreia esta quinta-feira, é-o por diversas razões. Primeiro, porque acontece numa estrutura metálica gigantesca, montada no claustro do Mosteiro dos Jerónimos, ao ar livre. Depois, porque conta no elenco com 50 músicos da Banda da Armada Portuguesa, do Museu da Marinha. Finalmente, porque junta actores, bailarinos, cantores líricos, cantores populares e vocalistas do chamado rock pesado. Incluindo Rui Sidónio, dos Bizarra Locomotiva, e Fernando Ribeiro, dos Moonspell.
Saga, que estará em representação até 13 de Julho, é o projecto mais ambicioso d’O Bando desde o monumental Ensaio Sobre a Cegueira, feito há quatro anos a partir do livro de José Saramago. Desta vez, João Brites, que dirige o grupo e é responsável pela dramaturgia e pela encenação, foi buscar dois contos de Sophia de Mello Breyner Andresen, a Saga e O Silêncio, e desafiou o compositor Jorge Salgueiro a escrever a música para uma peça cantada onde não há praticamente textos falados.
Uma ópera inédita.
Brites diz que tudo começou verdadeiramente há já alguns anos, quando trabalhou pela primeira vez com o compositor, por ocasião de Faro Capital Nacional da Cultura. “Havia um projecto em que tínhamos de escolher uma aldeia para apresentar um trabalho, e nós escolhemos Querença”, conta o encenador. “E eu lembro-me que o Jorge fez uma composição de seis minutos que misturava vários estilos de música, do lírico a um género mais pesado, a partir de uma banda local”, continua. “Foi aí que eu vi que uma composição pode ter coerência usando uma série de diferentes linguagens. E isso deu-me ânimo para esta ópera, para juntar tudo isto, sem ser em fusão. Irrita-me um bocado esta ideia de fusão que se implantou agora”, diz o encenador.
“A nós interessa-nos mais a confrontação.” É assim que esta peça, conclui o encenador, “é, de certa forma, uma posição face aos preconceitos, porque se calhar certos eruditos vão ficar chocados com uma mistura destas, assim como os fãs dos Moonspell talvez não achem graça o Fernando Ribeiro estar aqui no meio.”
Tem tudo que ver com estarmos abertos ao que é diferente, dirá Jorge Salgueiro. “Está na própria história que contamos na Saga, que tem que ver com a capacidade de abrirmos o nosso mundo e de espreitarmos o mundo dos outros”, explica o compositor. “Isto também se pode fazer com as disciplinas artísticas”, continua. Aqui temos a ópera em confronto com o teatro e vários tipos de canto, mas há uma linha estética.”
Ao contrário do que sucede no conto de Sophia, o protagonista desta história é uma mulher, Joana (Inês Madeira), que decide ser marinheira contra a vontade do pai, Gustavo (o cantor popular Francisco Fanhais). A actriz Ana Brandão, que na história faz de filha de Joana, é quem dá a voz ao pouco texto falado que aparece, e quem contextualiza a história da família, que nesta encenação se desenrola em três andares.
Porque na estrutura metálica que serve de palco a Saga – ópera extravagante é como se houvesse uma série de patamares: no meio, toda fardada de branco, fica a Banda da Armada, uma mancha de 50 músicos com os seus instrumentos. É aí que são projectadas luzes azuis e verdes, a fazer lembrar o mar, o elemento central da história. Acima do mar, fica a varanda mais alta de todas, morada dos Deuses Piratas, que um dia, “por cansaço ou capricho”, como diz Brites, resolvem descer ao mundo dos humanos. Aí, o contraste de vozes é gritante: a deusa é interpretada por Filipa Lopes, intérprete de canto lírico do Teatro São Carlos, cheia de trinados na voz, enquanto o deus pirata ganha voz através do tom gutural de Fernando Ribeiro ou de Rui Sidónio.
Por último, abaixo do mar ficam o Homem e a Mulher do Silêncio, prisioneiros que estão numa espécie de limbo.
“Cala-te, cala-te, cala-te”, canta o homem do Silêncio.
Tarefa difícil para duas horas de espectáculo que se fazem de música e que pretendem atrair todos os tipos de público. Incluindo quem não fala português, porque a peça está legendada em inglês.
‘A Saga’ estreia-se quinta-feira e está em cena até 13 de Julho. Qui-Dom 21.30, no claustro do Mosteiro dos Jerónimos (entrada pelo Museu da Marinha). Recomenda-se um agasalho quente. 12 e 15€.
terça-feira, 17 de Junho de 2008